quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

SAWABONA - Sobre estar sozinho-


 Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar. 
 A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo está fadada a desaparecer neste início de século.                             
     O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
 Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher.  Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
 A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz:  o outro tem de saber fazer o que eu  não sei.                 
Se  sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência,  e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século  é parceria.  Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.  Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. 
 Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver  melhor consigo mesmas.  Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. 
 O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração.                                             Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro  de viagem. 
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. 
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.                                  Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho  não é vergonhoso.  Ao contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.  
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e,  na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...
PS: Caso tenha ficado curioso em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África e quer dizer  "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM".
Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA, que é   "ENTÃO, EU EXISTO PRA VOCÊ"
Flavio Guikovate (medico psicoterapeuta)

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